Um castigo perfeito

Por que quando nascemos e crescemos aprendemos a NÃO escutar os nossos pais e principalmente, nossas mães? Sabe aquela frase que “mãe sabe de tudo e sempre tem razão”? Pois é! Fui descobrir que era verdade aos oito anos de idade.

Nós deveríamos nascer com um botão de obedecer e escutar sempre as mães, pois saiba: íamos nos dar bem! O que aconteceu? Eu que havia descoberto a beleza de tratar os cabelos no auge dos meus seis anos de idade, amar Salões de Beleza, e ainda, achar aquilo tudo uma festa, um belo dia desmoronou por pura teimosia.

Ir a praia era e ainda é, um passeio maravilhoso no verão para os cariocas. Meus pais sempre adoraram praia. Nada de farofada. Praia e depois um bom restaurante. Eu, meus oito anos já estava com cabelos longos, na cintura. Tinha o maior orgulho deles. Mas antes de entrar no carro e seguir para a praia, ganhei duas tranças bem feitas pela minha mãe no estilo Índia Americana, e uma recomendação expressa: “nada de rolar na areia mocinha!”.

A princesinha aqui, fez tudo ao contrário. Foi o mesmo que dizer: “role na areia mocinha!” Rolei como uma pobre criança que nunca viu o mar. Uma esbórnia! Fiquei um verdadeiro bife à milanesa, desde os pés até os longos cabelos. Uma vergonha, para uma mãe que é uma dama e em tudo. Ela por sua vez nada dizia. Somente de sua cadeira, tomava conta de mim, com os olhos semicerrados, como quem me avisava que em casa eu teria grandes problemas.

Não deu outra. No banho, quem disse que ela conseguia desembaraçar meus longos cabelos bem cuidados e desfazer as tranças cheias de areia? Minha mãe não teve conversa! Me arrumou e me levou ao Salão mais caro da Zona Norte de Niterói, onde nós morávamos e pediu a cabeleireira que cortasse meus cabelos.

 De olhos arregalados, no meio daquele Salão todo de madeira escura eu me olhei desesperada no espelho e vi a tesoura cortar bem rente a primeira trança e depois a segunda. O cabelo claro que ficou disforme. A cabelereira perguntou: “Qual o corte agora?”. Minha mãe respondeu sem hesitar: Elis Regina! 

 Vocês conseguem imaginar o meu estado de choque imediato e permanente? Acho que aquele corte foi traumatizante até para nossa famosa cantora. Era horrível, tenebroso, apavorante. Foi um pesadelo! Eu nem me mexia na cadeira. Só via as longas tranças nas mãos de minha mãe e o restante que sobrou em minha cabeça caindo no chão.

Quando tudo terminou, não havia shampoos bacanas, óleos ou máscaras e muito menos escovas que deixassem os cabelos perfeitos, como hoje em dia existem para um corte deste tipo. Era toca, rolinhos para cabelos e aquele secador horroroso da foto do post anterior.

Claro que cheguei chorando em casa. Eu era gordinha, baixinha e com um cabelo horrendo. Nem conseguia ver Elis Regina na TV e muito menos ouvir seus discos, pois me vinha sempre em mente a figura dela com os cabelos iguais aos meus. Meu pai quando me viu, quase desmaiou de susto e perguntou por que minha mãe havia feito aquilo? Um verdadeiro estrago! Só lembro minha mãe dizendo: “A culpa foi de sua filha, eu avisei!”.

Meu lindo cabelo repousava dentro de um saco e meses depois apareceu lisinho em forma de peruca, usado lindamente por minha mãe em festas e aniversários como aplique. Ele ficou longo. Até abaixo do pescoço. Meu cabelo virou um aplique!!!

Eu, é claro, fiquei traumatizada. Tenho fotos, mas impublicáveis (rs). Qual a mulher que fica bonita com este corte? Acho que são poucas e eu não era uma delas. Ainda mais na década de 70. Hoje com os tratamentos de cabelos eles ficam perfeitos em muitas mulheres. Lembro que naquela época, o cabelo ficava duro e enrolado. Eu ODIAVAAAAAA! Que castigo eu tinha recebido! Confesso que não me lembro do dia que fui para a escola. Acho que foi tão traumático que apaguei da memória. Melhor assim!

Quanto ao aplique, depois de anos, ele foi usado para uma justa causa e fico orgulhosa de ter contribuído para isto. Ajudou na recuperação de minha Tia materna, cunhada de minha mãe, que teve um tumor no cérebro e raspou todo o cabelo. Ela usava o aplique com um lenço na frente. Ficava muito bonita.

Com o tempo, meus cabelos cresceram, novidades foram aparecendo. Como o Neutrox para banho e praia (rs), escovas redondas, tocas, truques e mais truques que eu e minhas amigas trocávamos. Usar óleo Johnson não somente no corpo, mas também nos cabelos, passá-los com ferro elétrico para deixá-los lisinhos, etc. Maluquices que hoje nunca faria. Mas que deixaram lembranças maravilhosas.

E o aplique ele ainda existe? Não! Meus lindos cabelos em aplique desapareceram com o tempo. Sei lá onde ele foi parar. Minha Tia não se lembra. Era o único material prova viva com a cor natural de meus cabelos. Como ele realmente era.

E a lição aprendida: Nunca mais desobedecer minha mãe e saber observar seus sinais e escutar muito bem seus conselhos. Não posso culpar o Salão de Beleza e sim, a minha teimosia. Voltei a amar os salões e a frequentá-los. E é claro, se a tivesse escutado não teria uma foto infame em preto e branco, de minha persona, com os cabelos tipo Elis Regina, segurando uma florzinha em um álbum de família. (rs)

Só me restou aprender com a Elis o que ela canta nesta música:

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